Ir ao conteúdo

Com apoio do GeoGebra, professor transforma problemas complexos em aprendizagem acessível e vence prêmio do PROFMAT no Sudeste 

Dissertação de Marcus Vinícius Carvalho Floriano propõe o uso da tecnologia para ensinar otimização e aproximar a matemática do cotidiano dos alunos

Marcus Vinícius recebeu o prêmio das mãos do representante docente do PROFMAT, professor Pedro Henrique Daldegan | Imagem: João Arenhart/PROFMAT

Transformar conteúdos considerados difíceis em experiências significativas de aprendizagem é um dos maiores desafios da educação matemática. Foi a partir dessa inquietação que o professor Marcus Vinícius Carvalho Floriano construiu a dissertação “GeoGebra na educação básica: uma abordagem para o ensino de problemas de otimização”, que conquistou o Prêmio Regional de Dissertações do Programa de Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT), pela região Sudeste. O professor recebeu a honraria durante o II Encontro Nacional do PROFMAT, que foi realizado em Campo Grande, em outubro de 2025. 

Para o professor de matemática das redes municipal de Maricá e estadual do Rio de Janeiro, a experiência foi marcante. “Fiquei bastante surpreso, porque nem imaginava que existia esse tipo de premiação, muito menos que o meu trabalho poderia ser escolhido. Foi um momento de muita felicidade, do reconhecimento de todo o esforço, dedicação e também do apoio fundamental dos professores ao longo do curso”, diz.

A pesquisa de Marcus Vinícius nasceu do desejo de trabalhar conteúdos clássicos da educação básica, como funções, área e volume, a partir de uma abordagem mais próxima da realidade dos alunos. Nesse percurso, a orientação do professor Mário Olivero Marques da Silva, da Universidade Federal Fluminense (UFF), teve papel decisivo. “Ele me apresentou um tema que reunia tudo o que eu buscava e ainda ampliou essas possibilidades, ao integrar conteúdos de Cálculo e Recursos Educacionais. Isso também me ajudou a desconstruir a ideia de que o mestrado profissional não contribuiria tanto para a minha atuação em sala de aula”, relata.

O desenvolvimento da pesquisa seguiu um caminho estruturado, em que o foco era analisar se estudantes do 9ª ano do Ensino Fundamental e 1º ano do Ensino Médio seriam capazes de resolver problemas de otimização com o apoio de ferramentas digitais. Dessa forma, Marcus Vinícius elaborou seis atividades didáticas, organizadas de forma progressiva. A sequência começava com uma atividade introdutória sobre função quadrática e avançava para situações mais complexas, envolvendo conceitos como área, volume e o teorema de Pitágoras, sempre conectados a problemas de otimização.

A dissertação busca integrar a utilização do software GeoGebra como uma alternativa às regras de derivação na resolução de problemas no âmbito da Educação Básica | Imagem: Reprodução site GeoGebra

Em paralelo, o professor construiu planos de aula detalhados, pensados como material de apoio para outros docentes interessados em aplicar a proposta. Também desenvolveu soluções interativas no GeoGebra, permitindo que os alunos manipulem variáveis, testem diferentes cenários e observem, em tempo real, o comportamento das funções envolvidas. Aplicando em sala de aula, o professor incentivou os alunos a interpretar os problemas, levantar hipóteses e organizar dados. A construção de tabelas, por exemplo, surgiu como uma estratégia importante para que os estudantes identificassem padrões e formulassem a chamada função objetivo, etapa fundamental para chegar à solução.

Um dos casos desenvolvidos envolveu, por exemplo, a maximização da arrecadação de uma empresa de transporte. A partir de regras simples de precificação, os alunos testaram diferentes quantidades de passageiros, registraram os resultados e, com o apoio do GeoGebra, visualizaram o ponto em que a arrecadação era máxima. O processo, segundo Marcus Vinícius, permitiu compreender a lógica do problema antes mesmo de formalizar a solução. “Os resultados mostram que o uso do GeoGebra tornou mais acessível a resolução de problemas matemáticos complexos. Quando utilizado de forma planejada, o recurso não só desperta o interesse dos alunos, como também fortalece o processo de aprendizagem”, destaca Marcus Vinícius. 

Marcus Vinícius defendeu a dissertação no início de 2024 | Imagem: Arquivo pessoal

Segundo o docente, o cronograma de aplicação do estudo de caso foi distribuído ao longo de algumas semanas e precisou ser ajustado à realidade das escolas. Em uma delas, as atividades aconteceram na própria sala de aula, que contava com poucos recursos tecnológicos. “Tínhamos alguns computadores, mas nem todos funcionavam adequadamente. Em muitos momentos, recorremos aos celulares dos próprios alunos, e o acesso à internet também foi um desafio. Mesmo assim, conseguimos desenvolver as atividades”, relata.

Apesar das limitações, os resultados foram positivos. Os estudantes conseguiram acompanhar as propostas, construir estratégias e compreender os conceitos envolvidos. “Mais do que resolver problemas, eles passaram a entender a lógica por trás das soluções, o que indica avanços em termos de aprendizagem significativa e autonomia”, avalia o professor.

“Quando o aluno pergunta onde vai usar aquilo, é um sinal de que o conteúdo não está fazendo sentido. A minha proposta foi justamente mudar essa percepção”, afirma o professor Marcus Vinícius | Imagem: Arquivo pessoal 

Da sala de aula ao reconhecimento nacional 

Natural de Niterói, Marcus Vinícius acumula 18 anos de experiência em sala de aula, um percurso que começou ainda nos tempos de estudante. “Eu sempre tive facilidade com a matemática e ajudava colegas que tinham dificuldades. Meus professores já diziam que eu deveria seguir na área”, recorda.

No entanto, antes de ingressar na Licenciatura em Matemática pela Universidade Federal Fluminense (UFF), o professor teve uma passagem pelo setor industrial, onde atuou por cerca de cinco anos como eletrotécnico. Depois de concluir a graduação, Marcus conta que desejava aprofundar a formação acadêmica, mas acabou adiando a ideia pela rotina intensa e pelas limitações do plano de carreira no estado do Rio de Janeiro. Foi apenas em 2022, ao assumir como professor efetivo na rede municipal de Maricá, que o docente diz ter encontrado as condições necessárias para ingressar no mestrado profissional. A espera, segundo ele, valeu a pena. “O mestrado mudou bastante a minha forma de enxergar a matemática e a educação. Passei a valorizar mais a compreensão da lógica por trás das fórmulas, com demonstrações pertinentes e sem excessos. Também me preocupo mais em dar sentido ao que ensino, aproximando a matemática da realidade dos alunos”, afirma.

A trajetória acadêmica deve ganhar um novo capítulo. Impulsionado pelo reconhecimento, Marcus pretende seguir para o doutorado profissional, ampliando suas investigações sobre ensino de matemática e uso de tecnologias na educação.

Publicado emNotícias