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Pesquisa sobre aplicações didáticas do Jogo da Onça vence Prêmio Regional do PROFMAT na região Sul

Com foco em raciocínio lógico e análise combinatória, proposta da professora Elenice Carvalho Alves converge com a obrigatoriedade do ensino da história e cultura indígena

Elenice Alves recebeu o prêmio PROFMAT das mãos da professora Carmen Vieira Mathias, vice-coordenadora na Comissão Nacional do programa de mestrado profissional | Foto: João Arenhart/SBM

A professora Elenice de Carvalho Alves é a prova de que a persistência faz parte da trajetória de quem se destaca. Docente de uma escola pública em Alegrete (RS), ela precisou enfrentar alguns reveses até concluir a pesquisa “Teoria das situações didáticas e o Jogo da Onça como opção estratégica de ensino”,  laureada com o  Prêmio Regional de Dissertações do Programa de Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (PROFMAT) pela região sul.

“Precisei insistir muito até chegar a esse momento vitorioso da minha trajetória profissional e acadêmica. Tentei a seleção para o PROFMAT diversas vezes, fui aprovada em 2017 e depois reprovei por 0,25 no exame de qualificação, o que me obrigou a refazer todo o processo seletivo”, conta. 

Mesmo diante dos obstáculos, como a rotina de estudos na madrugada e as viagens frequentes até a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), onde realizava o PROFMAT, ela seguiu em frente.

“Trabalhava 40 horas por semana, de segunda a sexta-feira, então o único horário que tinha para estudar era à noite”, conta.

A dissertação contou com a orientação do professor Eduardo Casagrande Stabel, da UFSM | Foto: Arquivo pessoal

Matemática a partir do jogo 

A dissertação vencedora investiga o potencial pedagógico do Jogo da Onça no ensino da matemática, articulando raciocínio lógico e análise combinatória com a valorização da cultura indígena. Elenice utilizou a Teoria das Situações Didáticas como base para a aplicação prática no jogo, composto por um tabuleiro, 14 peças que representam um cachorro e uma peça que representa a onça.

“O objetivo dos cachorros é capturar e prender a onça em algum lugar do tabuleiro. Eles têm que deixar ela imobilizada. E a onça tem como objetivo capturar cinco cachorros. Vence quem conseguir alcançar primeiro com o seu objetivo”, explica Elenice.

O jogo traz a ideia de coletividade e era usado para ensinar estratégias de caça para os mais jovens das aldeias indígenas. Os jogadores precisam agir de forma estratégica para vencer, e é justamente aí que a matemática entra. A lógica aparece no planejamento de cada jogada, já que é preciso pensar nos próprios movimentos e também antecipar as possíveis ações do adversário.

O Jogo da Onça foi transformado em um material didático que integra conceitos matemáticos com questões sociais fundamentais | Foto: Arquivo pessoal

“É um jogo que mobiliza intensamente o raciocínio lógico e estratégico”, defende Elenice.

Já a análise combinatória entrou justamente a partir desses desafios. Ao observar as possibilidades de movimento e os diferentes cenários que surgiam no jogo, a docente começou a formular problemas e a analisá-los matematicamente.

“Comecei a pensar, por exemplo, de quantas maneiras posso posicionar a onça no jogo? E se já tiver alguns cachorros no tabuleiro? E se não tiver nenhum?  Ou de quantas formas eu posso posicionar a onça e dois cachorros de modo que nenhuma seja capturada? São muitas possibilidades”, destaca.

A partir dessas reflexões, a docente desenvolveu 126 problemas, que versam sobre  temas de análise combinatória, como contagem, permutação,  restrições de posição e alguns desafios matemáticos.  Para validar a eficácia da sua metodologia, Elenice convidou alunos do Ensino Médio, que participaram de cinco oficinas que compunham o planejamento da sequência didática. Em cada encontro eles foram apresentados a conceitos, além de poderem experimentar o jogo e  resolver alguns problemas conforme o planejamento da sequência didática. No sexto dia, a professora Elenice propôs um campeonato, que começou às 16h e terminou às 21h, tamanha a empolgação dos jogadores.

“Aprender matemática a partir de um jogo, e não apenas com exercícios no papel, coloca o aluno como protagonista daquele momento. É outra realidade, outra motivação. Em vez de ficar resolvendo lista atrás de lista, ele resolve problemas dentro do jogo, aprende e muitas vezes nem percebe que está estudando. O processo deixa de ser algo tão sofrido”, defende. 

Por meio de oficinas com alunos do Ensino Médio, a professora Elenice validou a eficácia da proposta pedagógica | Foto: Arquivo pessoal

Valorização da cultura indígena 

A aplicação com os alunos também serviu para validar a eficácia do Jogo da Onça como instrumento de ensino sobre a cultura indígena, cumprindo com o que diz a Lei 11.645/2008. Ela determina sobre a obrigatoriedade do ensino da história afro-brasileira e dos povos originais em diferentes disciplinas. De acordo com Elenice, foi possível promover reflexões e desconstruir estereótipos.

Muitas vezes a representação que se tem da população indígena é aquela que remete ao ano de 1500. Então, ressaltei que eles não estão presos a esse passado e que têm uma vida muitas vezes semelhante à nossa, frequentam universidades, são advogados, médicos, usam redes sociais, etc. Também fiz questão de comentar sobre a existência de populações indígenas em todo o país e não só na Amazônia ”, relata.

O trabalho não apenas recebeu o prêmio do PROFMAT, como também se transformou em um projeto de extensão na UFSM, coordenado pela professora Karine Faverzani Magnago.

“É um trabalho que não ficou só no repositório da universidade e ganhou aplicação. Então, acredito que a premiação válida que é possível transformar a prática em sala de aula através de um olhar diferenciado para a matemática, unindo o rigor dos teoremas ao protagonismo dos alunos e à valorização cultural”, finaliza.

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Publicado emNotícias