Ir ao conteúdo

Entre a OBMEP e o PROFMAT: como a trajetória de Rodrigo Mota Marinho saiu do sonho militar para a paixão pela Matemática

Com origem humilde e trajetória marcada por reviravoltas, professor tocantinense viu na OBMEP a chance de se reconectar com o ensino e, no PROFMAT, o caminho para aprofundar sua formação

Rodrigo Mota Marinho, egresso do PROFMAT pela UFT – campus de Arraias, transforma sua prática docente por meio da olimpíada e da educação matemática | Foto: Arquivo Pessoal

Por trás de um professor apaixonado por olimpíadas de matemática e por formar alunos críticos e independentes, está uma história de descobertas inesperadas, reencontros com o saber e transformação pessoal. Durante a juventude, Rodrigo Mota Marinho tinha um plano claro para o futuro: ser militar do Exército. Suas disciplinas favoritas estavam mais ligadas às ciências humanas — especialmente a História. 

A Matemática, por outro lado, passava longe das suas preferências. Entretanto, o surgimento da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP) em 2005 foi um divisor de águas na sua trajetória profissional. O trabalho com problemas desafiadores no estilo OBMEP foi tão marcante que, quando surgiu a oportunidade de aperfeiçoamento, ingressou no Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional – PROFMAT –, o qual transformou sua trajetória como educador e como pessoa.

Onde tudo começou 

Natural de Araguaína, no norte do Tocantins, Rodrigo é o filho mais velho de uma família simples, marcada por desafios e superações. Cresceu vendo o pai, policial militar, ser frequentemente transferido, enquanto a mãe se dedicava integralmente à criação dos filhos. Casados muito jovens — ela com 15 anos, ele com 21 —, os pais não haviam concluído o Ensino Médio. Mas isso nunca os impediu de transmitir um valor essencial aos descendentes: o da educação.

“Minha mãe sempre dizia que o estudo era o único tesouro que ninguém poderia nos roubar”, lembra ele. E esse tesouro, de fato, foi buscado com afinco pelos três irmãos. Os pais posteriormente concluíram o Ensino Médio. Sua mãe conseguiu frequentar um curso Normal Superior. “Foi algo marcante. No fim, todos os três irmãos fizeram curso superior. Isso foi motivo de muito orgulho para os meus pais”, continua Rodrigo. 

Quando chegou sua vez de escolher um curso, porém, Rodrigo se viu perdido. O sonho de ser militar não se concretizou, e a Matemática, apesar de ser uma área carente de profissionais, não despertava entusiasmo. “Escolhi o curso de Matemática por eliminação”, confessa. 

À época, a Universidade Estadual do Tocantins (Unitins) oferecia poucas opções e a carência de professores de Matemática no estado indicava boas chances de emprego. Mas a escolha pragmática não significou envolvimento. A graduação foi cumprida com desânimo. “Foi algo meramente protocolar, sem maiores entusiasmos”, continua Rodrigo.

Mestre em Matemática pelo PROFMAT, Rodrigo dedica-se à formação de alunos críticos e apaixonados por desafios | Foto: Arquivo Pessoal

Mesmo depois de formado, Rodrigo ainda buscou novos rumos. Ingressou em Engenharia de Alimentos na Universidade Federal do Tocantins (UFT) e, paralelamente, tentou a Ciência da Computação. Nenhum dos caminhos o satisfez plenamente. Já atuando como professor efetivo da rede municipal de Palmas, sentia-se frustrado — sem encontrar na sala de aula uma razão mais profunda para continuar.

OBMEP: o ponto de virada

Foi então que surgiu a OBMEP como um divisor de águas. Foi através dela que Rodrigo teve, enfim, contato com uma Matemática diferente — desafiadora, criativa e instigante. “Foi a primeira vez que senti verdadeiramente paixão pela Matemática e por minha profissão”, relembra.

A partir dessa nova experiência, sua relação com o ensino mudou. A Matemática que antes era apenas uma ferramenta para garantir o sustento virou um campo de descobertas e possibilidades. E esse encantamento o levou a buscar uma formação mais sólida: o PROFMAT, iniciativa coordenada pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM). 

Rodrigo ingressou no PROFMAT em 2016, pela Universidade Federal do Tocantins (UFT) – campus de Arraias, e concluiu o mestrado em 2020. Foram quatro anos que marcaram uma mudança profunda em sua trajetória profissional e pessoal.

“Posso dizer sem titubear que fiz o PROFMAT por conta da OBMEP. Me apaixonei pela olimpíada e, depois disso, desejei ingressar no mestrado”, acrescenta.

Um novo professor

Ao longo do PROFMAT, Rodrigo passou a enxergar a Matemática sob um novo prisma. As demonstrações — que antes pareciam desnecessárias ou abstratas — ganharam beleza e profundidade. A formação também fortaleceu sua postura em sala de aula. “O PROFMAT nos dá autoconfiança, segurança. Aqueles questionamentos inesperados dos alunos passam a ser vistos como desafios que você quer vencer — e sabe que consegue”, confia.

A mudança não ficou só na teoria. Rodrigo começou a desenvolver, em todas as escolas por onde passou, projetos de treinamento para a OBMEP. Os grupos de estudo se iniciam sempre antes da primeira fase da olimpíada e têm foco em desenvolver o pensamento crítico e a autonomia dos alunos.

Ele tem colhido os frutos desse trabalho: em 2019 na Escola de Tempo Integral (ETI) Vinícius de Moraes, em Palmas, seus alunos conquistaram o melhor desempenho da rede municipal na OBMEP à época. “Foi um resultado surpreendente à época. Apesar de já ter tido outras boas conquistas, essa me marcou profundamente”, admite o tocantinense. 

Desde 2019 foram três vezes professor premiado na OBMEP. Em 2024, à frente do grupo de treinamento da Escola Municipal Henrique Talone Pinheiro ajudou a conquistar o primeiro ouro em OBMEP da escola e o melhor resultado daquela edição dentre as escolas públicas tocantinenses. Em 2025, coordenando duas equipes da Escola Municipal Henrique Talone Pinheiro na Olimpíada de Matemática da Unicamp, uma de suas equipes conseguiu passar à terceira fase – algo inédito para escolas do Tocantins.

Formação contínua para um novo tempo

Para Rodrigo, o papel da Matemática na escola vai muito além de ensinar fórmulas. Ela deve ajudar os alunos a entender, explicar e atuar no mundo de forma mais autônoma. Mas isso, ele acredita, só é possível com uma formação docente que dialogue com os desafios contemporâneos.

Com dedicação e olhar atento, Rodrigo estimula o raciocínio lógico e a autonomia dos alunos em treinamentos para a OBMEP | Foto: Gessica Almeida / Semed

“Os alunos que hoje recebemos são totalmente diferentes daqueles que idealizamos durante a graduação. As tecnologias, os comportamentos e as formas de se comunicar mudaram. Por isso, é fundamental que os professores estejam em constante processo de formação”, analisa o professor.

O PROFMAT, nesse sentido, foi um ponto de inflexão. Ao se reencontrar com a Matemática e com sua vocação para o ensino, Rodrigo também descobriu o poder da educação como instrumento de transformação — não só na vida dos alunos, mas na sua própria trajetória.

Hoje, aos 46 anos, tocantinense de coração e de missão, ele leciona para turmas de 8º e 9º anos na rede municipal de Palmas e para o Ensino Médio na rede estadual. À frente de mais uma geração de estudantes, segue promovendo grupos de treinamento olímpico e semeando o gosto pelos desafios matemáticos — não apenas como exercícios escolares, mas como pontes para a autonomia intelectual.

Em cada turma, enxerga a possibilidade de despertar novos interesses, descobrir talentos escondidos e formar jovens que veem no conhecimento uma ferramenta para transformar a própria realidade. A Matemática, que entrou em sua vida quase por acaso, acabou se tornando um instrumento de propósito, reencontro e compromisso com a educação pública de qualidade. 

Rodrigo Mota Marinho é, hoje, a prova de que é possível encontrar sentido naquilo que um dia pareceu apenas uma obrigação — e de que a paixão pelo ensino, quando cultivada com seriedade, pode transformar destinos.

Publicado emNotícias